quarta-feira, 30 de julho de 2014

Coluna SNACK BAR - O Lado B da Humanidade: ENTRE O MÉXICO E O INFERNO (A Sina do Cracker Blues)




            Durante vários anos, antes de se tornar um arremedo de rádio rock, a Kiss FM transmitiu um programa chamado “House of Blues”. Um programa produzido e apresentado por Ricardo Côrte Real. E que abordava todo o universo do blues.
            Doravante, em uma de suas chamadas, Ricardo Côrte Real citou um trecho da introdução do livro “The Story of the Blues”. Publicado em 1969 e escrito por Paul Oliver. Do qual foi extraída a seguinte descrição: “O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero do desempregado, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico”.
            Ademais, na noite do dia 19 de julho de 2011, o frio fazia com que as pessoas se espremessem, no estacionamento do Ginásio Constâncio Vaz Guimarães. E o cheiro de couro era o indício de que muitos se aqueciam de dois jeitos. Primeiro, fisicamente. Por meio de ajeitadas jaquetas. E, em segundo, intelectualmente. Ao repelir qualquer defensor dos direitos dos animais. Que, com sua conversa fiada, “enfrescalharia” ainda mais a noite.
            Assim, no (vulgo) Ginásio do Ibirapuera, ocorreu o “Ibira Moto Point”. Um evento realizado pela “Federação dos Motoclubes do Estado de São Paulo”. Evento que teve como atração musical a banda “Cracker Blues”. Que toca a autêntica música sertaneja norte-americana. E é composta por Coruja, na gaita e no vocal, Gaúcho, na bateria, Krüger, no baixo, e Marceleza, na guitarra; contando com o charme de Fernanda, a galega, e de Larissa, a morena, no acompanhamento. Sempre sob um figurino todo inspirado nos produtos de um brechó especializado em costumes e assessórios dos filmes de Sergio Leone.
            Sem mais, na noite em questão, a banda também comercializou o seu primeiro e único álbum. “Entre o México e o Inferno”, lançado em 2009. Um álbum que tem na capa um Capeta ilustrado em estilo mangá. Muito bem-ajambrado. Com um terno grafite, anéis de “cafetão” e um chapéu-coco.
            Um chapéu que ele tira da cabeça, em um elegante gesto de saudação. Relembrando a canção “Balão Apagado”. Que, em 1936, Noel Rosa lançou. Na qual o Demônio responde a um bilhete que se extraviou e não chegou a Santo Antônio. E o faz com os seguintes versos: “Balão apagado / Não entra no céu / No inferno, tu serás respeitado / Tu tens tanto pecado / Que eu tiro o chapéu”.
            Todavia, na manga do braço destro da criatura, há duas cartas de baralho. Sendo que uma delas é identificável. Tratando-se do Ás de Espadas. Que, no pôquer, pode transformar uma mão ruim em boa. E, no tarô, representa o início de uma nova jornada.
            Dentro do álbum, há uma riqueza lírica que leva à possível elaboração de uma “Ópera Blues”. Contando, a cada música, a história de um herói. A partir de “Bolero Maldito”. Em que, na primeira pessoa, ele faz um relato da sua tragédia ao explanar: “Quando eu era moleque, eu era meio idiota / Quando eu cresci, eu fiquei muito pior”. Uma informação que é respaldada na música “Whisky Cabrón”. Dado que em seus versos constam: “O meu nome tá mais sujo / Que pornografia de segunda mão”. O que, em “Velha Tatuagem”, é explicado através do seguinte refrão: “Eu tatuei o nome dela no meu braço / Eu tatuei até não me sobrar espaço / E aquela vaca me trocou por outro macho / No nome dela eu tatuei ‘piranha’, embaixo”. Algo que, em “Sangue de Segunda”, leva o protagonista à fossa. Como, então, ele esclarece: “Bebi desodorante vagabundo / Pra repor meu álcool / Tudo o que eu amava, nessa vida / Foi pro saco”. Porém, em “Blues do Inimigo”, ele demonstra ter a ciência de que nem toda dignidade foi perdida. Orgulhando-se disso ao alardear o seguinte fato: “Corre por aí / Que eu não sou fiel / Mas eu pago o meu cigarro / E minha conta no bordel”. E, em “Nascido em São Paulo”, ele planeja uma nova jornada ao mencionar: “Um dia eu vou pro Sul / Pra ver as loiras de lá”. Entretanto, a coisa não é tão simples assim. Já que, em “Tinhoso”, ele se recorda da “inhaca” de um passado que nunca passará. Visto que ele relata: “Vendi minha alma a troco de pinga / Mas o Tinhoso não me chamou ainda”.
            Agora, na oitava faixa, há uma pausa. Pois em “Charles Bronson Blues” o ritmo é quebrado por um funk instrumental.
            Sem mais, em “Que o Diabo lhe Carregue”, o herói volta a flertar com a derrota. Ora que, por meio dos versos: “Minha cerveja / Tá pegando dengue / Num balcão de botequim”, ele noticia o fato de que o dissabor da vida o impede de se embriagar. E, em “Blues 56 – Lobo no Mar”, ele se lembra de que nem tudo é tão ruim que algo de bom não faça parecer pior. Dado que ele esmiúça essa condição ao cantar: “O mar não tá para peixe / Mas sou gerente do puteiro”. Por fim, em “Oração para um Ordinário”, há sua versão cristã para a “Sala do Julgamento”, do “Livro Egípcio dos Mortos”. Uma sala em que, perante Anúbis, o coração, simbolizado por um escaravelho, é colocado sobre um dos pratos de uma balança. Enquanto, sobre o outro, é disposta a pena da Deusa Maat – uma entidade que personifica a justiça. E só o equilibro permitirá que a alma errante adentre ao paraíso. O que, em contrapartida, na lógica cristã, coloca o ônus da vida ao encargo de Deus. Delegando a Ele, e não à própria consciência, a responsabilidade pelos atos de quem atravessou a vida. E assim, à Divindade o herói implora: “Não peço exagero / Só uma garantia / Que o nome deste filho / Seja limpo em tua pia”.








Todavia, há um ditado que afirma o seguinte: "a boa mulher é aquela que perdeu a virgindade e manteve a classe". Contudo, como é possível manter a "classe" se se cultua o axioma que prega que "o aspecto proveitoso da fidelidade é que ela comprova o quão prazerosa é a promiscuidade"?
Simples: criando uma sociedade paralela. Em que a distorção social transforma a fraqueza em virtude.
Assim, um grupo de misses embarcou em uma cruzada contra a real razão de seu fracasso: a competência alheia. E se deparou com o sucesso da incompetência: ou seja, o acaso.

 
A Quadrilha das Misses Assassinas*
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quinta-feira, 24 de julho de 2014

Da Série "O Sangue Derramado": OS VIVOS NÃO MORREM ONDE OS MORTOS NÃO VIVEM


            Em meio à razão da noite, um pastor-belga se materializa, graças à distante luz da lâmpada de vapor de sódio de um poste. Que era refletida por seu lustroso pelo, pelos enigmáticos olhos e repousava na fumaça em que, em função do forte frio, sua respiração se transmutava. Enquanto observava um cidadão que, junto ao tal poste, fumava.
           
            - Você não me disse que era tabagista – comentou uma moça pálida que, com uma bolsa pendurada no ombro, do tal sujeito se aproximou. Uma mulher que aparentava ter acabado de sair da adolescência. E se distinguia por possuir lábios carnudos e pintados de preto, grandes olhos azuis, que eram “exotizados” por uma maquiagem em estilo egípcio, e por ostentar um penteado em modelo colmeia, que, devido à sua pouca idade, levava a deduzir que era mais inspirado em Amy Winehouse do que em Elvira, a Rainha das Trevas.
            - Quer uma cigarrilha Zino, Beatriz? – ele perguntou, ao notar que, em decorrência do decréscimo de distância, dois “piercings” de ouro branco destoavam do rosto da criatura. Um captive, no lábio inferior, e um barbell, na sobrancelha. Consequentemente, também inferindo que o descoramento da cuja era causado por um problema de circulação sanguínea. Já que a roupa de couro preto, que ela usava, era tão apertada que a fazia, aparentemente, ter mais massa do que sua pouca carne, em outra circunstância, daria a entender.
            - Mais tarde, Emeric. Bem mais tarde. Se valer a pena – Beatriz respondeu, sem se concentrar no discurso. Visto que se deslumbrava com o comprimento exacerbado do rabo-de-cavalo dele.
            - Valerá – Emeric “contra-argumentou”, sem perder um detalhe da cuja. Como as pontas de uma tatuagem que lhe subia pelo pescoço.
            Todavia, em acordo com uma proposta preestabelecida, e aprovada por ela, dele – que tinha o propósito de poupá-los de algum possível acanhamento –, o duo perpetrou seu primeiro contato por meio de um breve ósculo; em que se tocaram com o canto de suas bocas.
            - Você é mais bonito do que eu esperava – Beatriz observou, ao se encantar com a doce malignidade que as espessas sobrancelhas outorgavam às vistas do cujo. Em que as íris sustentavam um tom achocolatado tão intenso que, por vezes, resvalava em uma pigmentação avermelhada. E concluiu: - Inclusive, suas fotos se parecem com pinturas.
            - É um truque.
            - Truque?
            - Espalham-se algumas pinturas hiper-realistas pela internet; para, na hora do “vamos ver”, surpreender.
            - Tem mais algumas surpresas aí?
            - Algumas.
            - O que é isso? – ela perguntou, ao se intrigar com a sacola cinza que ele carregava. Que, em função da iluminação pública, às vezes, adquiria uma tonalidade esverdeada.
            - Um macio colchonete.
            - Você sempre pensa em tudo?
            - O demônio se esconde nos detalhes.
           
            Enquanto várias nuvens sombrias vagavam pelo céu, o duo caminhou no curso de seu almejado destino. Que era discriminado por um letreiro arqueado e em neon azul em que se lia: “Cemitério Municipal de Arcádia Paulista”.
           
            - Me espera, aqui – pediu Emeric.
            - Não demora – Beatriz consentiu, ao seu modo, ficando à beira de uma larga calçada.
           
            Sem mais, ele tomou o rumo da entrada do cemitério. Chamando a atenção de um elemento alto, magro e que se trajava como um policial. Só que sem ter a posse de um distintivo. E que, por trás das desgastadas grades de um grande portão, ajeitou seu quepe e testou a lanterna.
            - Boa noite – saudou Emeric.
            - Boa noite – respondeu o desconfiado, porém morigerado, vigia.
            - Muito movimento, hoje?
            - Depende... Aqui, dentro, ou aí, fora?
            - Como dizem: “Os vivos não morrem onde os mortos não vivem”.
            - Em que eu posso te ajudar?
            - Qual é o seu nome?
            - Severino.
            - Severino, eu me chamo Kretzulesco, Emeric.
            - Kret...
            - Emeric.
            - Pois não, Emeric...
            - Está vendo aquela “gata”? – e, com uma leve oscilação da cabeça, acenou em direção a Beatriz.
            - Caprichada.
            - Até demais. E por conta disso, ela só quer transar comigo, se for dentro de um cemitério.
            - Que “barra”!
            - Ela nunca transou em um... E uma mulher deste “naipe” não se encontra por aí.
            - Olha, amigão... Se dependesse de mim, você poderia transformar esse lugar em um bordel. Mas se te pegam no flagra, eu vou ter que pedir esmola.
            - Não há alguém, aqui, que represente uma ameaça ao seu ofício, Severino. Fazendo com que a condição de “tolerável”, ou não, seja uma tarefa meramente interpretativa. Assim, as competências em que se incluem a missão de manter a louça lavada, os quadros alinhados com o horizonte e o gato nutrido são parte de um ônus exclusivamente seu.
            - Por isso, creio que você concorda com o meu receio em abrir a porta de casa a um desconhecido. O mínimo que pode acontecer, é o gato escapar.
            - Quanto a isso, não há discussão, Severino. E como raciocinamos na mesma frequência, eu sei que você está se vendo, como eu estou me vendo, diante do inusitado. O que não ocorre comumente. Mas que nos dá, assim, a chance de ter mais uma história para contar.
            - Realmente, não é algo corriqueiro.
            - E tem mais, Severino: você tem de fazer a ronda por todo o perímetro, durante essa gélida, porém bela, noite. Entretanto, há mais hectares de solo santo do que você tem de “perna” para caminhar. Logo, empatamos. Você se ocupa com uma parte da diligência; e nós damos fim à outra. Afinal, qual é o indivíduo que, na calada da noite, terá coragem de enfrentar duas entidades que gemem euforicamente, em meio a um cemitério.
            - Vocês vão fazer muito barulho?
            - Nada que atormente o sono dos mortos.
            - Isso não é blasfêmia?
            - Severino, o ato não se estende para além da consumação do fato. E por isso, o desejo é apenas o início de um fim. Logo, não há regresso. Tudo o que tinha de ser feito já está em movimento. E nós só estamos no meio do caminho.
            - Então você me transformou em um pecador?
            - Vamos alçar a situação ao seguinte patamar, Severino: você opta por não nos ver entrando e, consequentemente, não nos verá saindo. Por fim, nada terá acontecido.
            Todavia, sem conseguir se livrar do forte fitar de Emeric, Severino sentiu o peso da chave do portão aumentar. E, antes que o bolso da sua calça cedesse, disse:
            - Tá bom. Seja rápido – então, sacou um molho de chaves, que estava atrelado a um chaveiro enferrujado em forma de caixão, do bolso, escolheu a certa e, meio a um festival de ruídos metálicos, colocou-a em ação.
           
            Pela via de paralelepípedos, as botas country de couro claro dele e as meia-patas de couro preto fosco dela produziam um som que, por ser encorpado, pouco ressoava.
            - Para onde vamos? – interrogou Beatriz.
            - Não sei.
            - Como não sabe?
            - Não estou indo a um local específico. Estou em busca de um lugar que se adeque ao nosso intento – e retirou da sacola uma garrafa cantil negra de bolso. Que abriu, com o fim de se contentar com o seu conteúdo.
            - E existe algo do tipo, aqui?
            - Torço para que sim.
            - Vou torcer, também.
            - Quer? – Emeric indagou e ofereceu o recipiente a Beatriz.
            - O que é isso? – ela questionou, sem recusar a oferta.
            - Tuica.
            - O quê?
            - Um destilado de ameixa.
            - Hum... – ronronou e tomou um gole. – Arg!!! – grunhiu em resposta ao inesperado teor.
            - Forte?
            - Já engoli coisa pior – explicou, sem conseguir conter uma indisfarçável careta, e devolveu a beberagem a ele.
            - Chegamos – falou Emeric, ao parar e ingerir uma dose da sua Tuica, diante de um túmulo de uma gaveta e revestimento de granito rosa, que respondia às necessidades inerentes ao rito conubial que tinha a intenção de perpetrar.
            - Aqui?
            - Alguma restrição?
            - Nenhuma – Beatriz falou de forma conflituosa. Já que, uma inexplicável e leve alteração da sua pressão sanguínea lhe fraquejou a voz, assim que na lápide leu: “Aqui jaz Petula Sally Olwen Clark”, que nasceu em 15/11/1932 e foi imortalizada pela ação de algum vândalo que, no auge da sua idiotice, subtraiu os algarismos que completavam a informação.
           
            Sobre a sepultura, com o auxilio de Beatriz, Emeric ajeitava o colchonete. E via, no procedimento dela, o rastro de uma vasta educação. Já que a cuja, que se mostrava prendada, tentava, com o máximo de exatidão, alinhar as pontas da forração com as quinas do sepulcro. Contudo, também não escapando do seu mirar a perda gradual de graciosidade que a afligiu. Como se, talvez, inconscientemente, quisesse assumir uma forma grotesca, com o fim de repeli-lo.
            - Vamos fazer um jogo – então, propôs ele. – Como em “O Silêncio dos Inocentes”. Um quiproquó; em que, para cada tatuagem que eu te mostrar, você me revelará uma sua.
            - Você não tem tanta tatuagem assim – ela afirmou, com um indisfarçado tom de ironia.
            - Quer ver?
            - Quero.
            Quando o dito retirou seu casaco Pierre Cardin cinza e exibiu os desenhos da Tumba de Pakal e do Olho de Hórus, que lhe rasuravam os braços.
            - Gostei – disse ela.
            - Quiproquó.
            E Beatriz teve de readquirir a estética esquecida, para se despojar da jaqueta. Já que a veste, que de tão justa lhe ficava “injusta”, a obrigou a fazer uso de uma elasticidade similar a de uma víbora. Assim, expondo, no braço, uma Matrioska, no ombro, uma Lua Tribal, no pulso, uma Pimenta e um Fênix Tribal, no dorso. Que, em virtude da brancura da pele e da curvatura de tais áreas, se assemelhavam às gravuras que ilustram os tomos de qualquer códice da Idade Média. Ademais, assim que ele se desnudou da camiseta do Tottenham Hotspur, mostrando a Máscara de Hannya, que lhe cobria as costas, ela se desfez do top preto, evidenciando, em sua totalidade, o Coração Alado que lhe caía por entre os seios e cujas penas se esgueiravam rumo ao seu cachaço. Entretanto, Emeric apontou para os próprios mamilos; obrigando-a a se livrar do sutiã. Doravante, ele tirou as botas, as meias e a calça jeans, liberando a Teia em que residia uma Viúva Negra, a lhe adornar a coxa, quase simultaneamente a Beatriz. Posto que a cuja, cuja pele estava rosada, por causa de uma ligeira febre, com dois chutes, ficou descalça. Depois, desabotoou a parte inferior do traje, manipulou o zíper e o arriou, sem fazer cerimônia. Sem ter, tal qual seu par, muito para mostrar. Pois apenas tinha um rosário traçado no tornozelo e um Cupido Satânico gravado na bunda. Contudo, a fim de ver o longo falo que ele mal conseguia guardar na cueca, ela se antecipou e, com as mãos empapadas de suor, tirou sua calcinha de renda negra. E, sem mais, apontou para a vagina – cuja densa pelagem estava aparada em estilo moicano – e, com um desengonçado sorriso, afrontou o seu momentâneo rival.
            - Não vejo tatuagem alguma aí – ele criticou com um indisfarçado tom de insatisfação.
            Quando Beatriz deu uma bufada e, com a tez encarnada, ergueu os punhos trêmulos e cerrados. Mas se conteve e respirou profunda e pausadamente. Depois, puxou sua crina de pelos pubianos para o lado, revelando a reprodução do símbolo de Vênus, que lhe personalizava a enrugada região. E, então, com um psicótico olhar, inquiriu o cujo com um singelo vocábulo:
            - Quiproquó.
            Logo, Emeric mostrou-lhe os traços que, como em uma régua, se dividiam em milímetros e centímetros e se estendiam sobre o seu membro. Que se ampliou rapidamente. Tanto que a instigou com um senso de realismo, ao lhe confrontar com a seguinte constatação: “Eu não tô com essa ‘bola’ toda”. E que, ao ser encapado com um preservativo vermelho, se assemelhou com o mercúrio que, dentro de um termômetro, se expande ante uma alta temperatura. Uma intensidade que ele mensurou nela, por via oral, normal e animal.
           
            - Minha mãe fica fula da vida com qualquer coisa – Beatriz explicou, ao se esforçar para se observar em um espelho de bolsa que, em decorrência da pouca luminosidade, não refletia muita coisa. – Principalmente, quando a minha irmã aparece com a maquiagem borrada – e se sentou em busca de um melhor resultado.
            - Sua irmã é festeira? – perguntou Emeric que, deitado ao lado dela, apreciava um Cohiba Behike BHK 52.
            - Descuidada.
            - Muito?
            - Não é isso. É que, desde que meu pai foi embora, a minha mãe não “deu” mais. Nem sei se se masturba direito. Sei é que ela libera a vontade reprimida em quem estiver por perto.
            - Em quem não reaja violentamente, eu suponho?
            - É para isso que filho serve.
            - E daí?
            - “Tá sem movimento no puteiro?”, ela berra quando a coitadinha da minha irmãzinha se lembra de que tem casa. Tudo porque a menina, por mais que tente aparentar estar intacta, sempre deixa uma pequenina falha no cantinho esquerdo da boca. Bem lá. Talvez, porque seja canhota. Ou porque o namorado dela tenha o pinto torto. Do que eu duvido. Porque, comigo, que sou ambidestra, borra de forma homogênea. E, por mais ruim que seja o reparo, as discrepâncias não aparecem. E também, porque eu já vi pinto torto de tudo que é lado e nunca tive problema.
            - Conclusão?
            - Que todo motel deveria oferecer um maquiadora. Afinal, amor não arranca pedaço. Exceto do coração.
            - Que romântico.
            - Só sou romântica quando estou apaixonada.
            Ao que ele respondeu como uma profunda tragada.
            - Assim não dá! – esbravejou Beatriz. Que apanhou sua bolsa Roslin SS e nela guardou o espelhou. Para, então, se preparar para alcançar o xeque-mate em três jogadas. Visto que sentia tê-lo fragilizado emocionalmente. Logo, retirou da bolsa uma pistola Taurus PT 368 e um par de algemas German com dobradiças e ocultou-as junto à coxa. Depois, apanhou um Smartphone, em cuja capa havia a logomarca da banda Dead Kennedys, acionou o autorretrato, focalizou o próprio rosto e concluiu:
            - Joia.
            - Contente?
            - Ainda não. Vem fazer um “selfie” comigo.
            Sem mais, Emeric se sentou, passou o braço por trás dela e a puxou; aninhando-a na segurança do seu corpo.
            - Fotografou? – ele perguntou, ao se intrigar com o desassossego que alvoroçou sua companheira.
            - Não – disse ela, ao quase deixar o aparelho cair, devido ao malabarismo que efetuou, com o intuito de enquadrá-los corretamente.
            - Algum problema?
            - É que você não está aparecendo.
            - Por que será?
            Quando Beatriz arregalou os olhos e se virou para Emeric. Vendo-o, com os caninos proeminentes, avançar em sua direção.



Condessa Drácula
Um filme de Peter Sasdy
(Inglaterra / 1971)






Todavia, há um ditado que afirma o seguinte: "a boa mulher é aquela que perdeu a virgindade e manteve a classe". Contudo, como é possível manter a "classe" se se cultua o axioma que prega que "o aspecto proveitoso da fidelidade é que ela comprova o quão prazerosa é a promiscuidade"?

Simples: criando uma sociedade paralela. Em que a distorção social transforma a fraqueza em virtude.

Assim, um grupo de misses embarcou em uma cruzada contra a real razão de seu fracasso: a competência alheia. E se deparou com o sucesso da incompetência: ou seja, o acaso.

 
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PROMOÇÃO DE NATAL

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